PSICÓLOGO E COMO FUNCIONA UMA TERAPIA

A função básica da psicoterapia é a denúncia da perda do essencial: a intimidade plena com outro ser humano.(ANTONIO CARLOS- PSICÓLOGO)

Passados mais de cem anos do início da psicanálise detalhada por SIGMUND FREUD e quarenta anos exatos da regulamentação da psicologia como profissão em nosso país, cabe uma reflexão crítica acerca dos objetivos e conseqüências de determinada prática e sua influência nos meandros do psiquismo humano.

Inicialmente a prática da psicanálise se voltou para as pacientes histéricas descritas por FREUD; mulheres cuja gratificação sexual lhes era negada, transferindo essa repressão em sintomatologia variada, como por exemplo: cegueira, amnésia, problemas com o tônus muscular, pesadelos incompreensíveis, total abstinência sexual dentre outras. A análise das repressões inconscientes servia de motivação e amparo para o desbloqueio dos afetos, culminando na compreensão da paciente de que sua doença era fruto de determinadas emoções contidas e reprimidas, como o clássico "complexo de Édipo", onde a criança disputava com um dos genitores a primazia da atenção e recompensa afetiva.

Desde então a psicanálise se difundiu em todos os cantos do planeta, e aquilo que era folclore ou misticismo como, por exemplo: a análise dos sonhos e o passado do sujeito passaram a serem estudados cientificamente, sendo que seus resultados provocavam impactos significativos na mudança de comportamento dos sujeitos submetidos à psicoterapia.

Mas depois desse breve retrospecto histórico cabe a pergunta: Por que fazer terapia e sua função em nosso contexto atual? Qual seria talvez a orientação mais apropriada em nossa era tecnológica onde as questões humanas se tornaram quase que obsoletas?

Qualquer que seja a linha terapêutica seguida, a questão inicial básica da psicoterapia é o medo e seu companheiro eterno - o orgulho. Como trabalhar esses elementos paralelamente ao desespero que mobilizou a pessoa na busca de uma psicoterapia? Obviamente o primeiro sentimento preponderante é o de fracasso pessoal por se estar em uma encruzilhada sem solução, onde a única motivação é o puro sofrimento que na maioria das vezes falhamos em esmiuçar sua essência. Sem sombra de dúvida a primeira e mais importante função da psicoterapia é o combate ao medo crescente do paciente, contribuir para que sua vontade seja uma volta a gratificação perdida na trajetória da vida de determinada pessoa, que se sente impotente e incapaz de seguir adiante, e tal constatação gera uma enorme soma de vergonha, segundo elemento fundamental para ser trabalhado numa relação terapêutica, dado que o mundo da pessoa simplesmente desabou diante das adversidades presentes.

Seguindo esses parâmetros jamais uma psicoterapia deveria ter a função de consolar determinada pessoa, pois a suposta complacência implícita no elogio só irá camuflar o desafio não efetuado.

Escutar jamais deveria ser um ato passivo, mas principalmente uma troca de idéias onde o terapeuta sempre deve estar atento e intervir na medida em que determinado ponto impeça o livre fluir da emoção. Não preconizo a diretividade de uma terapia, pois sem dúvida o próprio paciente deve fixar suas metas, sendo que do contrário estaríamos lhe retirando seu poder pessoal. Mas é exatamente nesse poder pessoal do paciente que o terapeuta deve ser rígido e inflexível, não tolerando que o delegue a quem quer que seja, pois do contrário só reforçaremos o complexo de inferioridade do sujeito. Foi ALFRED ADLER, primeiramente companheiro de FREUD, que percebeu que o maior desejo de um ser humano é ser mimado ou amparado, mesmo que para isso use do expediente da doença ou deficiência para atrair à atenção para si próprio. Como conseqüência disso surge o ódio, pois a pessoa sempre terá em mente não ser capaz de efetuar determinada tarefa, e irá fazer tentativas de rebelião contra o ambiente que lhe supre das deficiências pessoais, embora sempre acabe por ceder à tentação de novamente ser cuidado. Na psicoterapia há esse constante perigo de se trocar à independência da pessoa apenas para se evitar uma situação de conflito entre paciente-terapeuta, absolutamente saudável para se elucidar as emoções contidas. Infelizmente nossa cultura hipócrita é totalmente dissimulada, sendo que boa parte dos pacientes procura consolo ou uma muleta para prosseguirem com seus mecanismos neuróticos.

Praticamente todo psicólogo já ouviu de seus pacientes a célebre frase: "Se estou aqui desejo realmente mudar". Devemos ser totalmente cautelosos com tal afirmação, pois muitas vezes a mesma é uma forma de corromper o terapeuta, justificando o gasto com tempo ou o dinheiro como sendo os ícones da mudança. Ir ao psicólogo é apenas o primeiro passo de uma jornada com o intuito de se readquirir algo que se perdeu no transcorrer da vida, talvez a ida não seja a etapa mais fácil, mas certamente não é a derradeira, pois além da presença, sempre numa terapia devemos constantemente checar fatores tais como: vontade, entusiasmo, dedicação e sobretudo coragem, já que o meio social nos treinou para jamais confiarmos em alguém por completo, e esse fato já faz da terapia algo que destoe do círculo social como um todo, sendo esse caráter criativo e inovador; a confiança o pilar máximo para averiguarmos até onde alguém deseja alterar sua história de vida.

Anteriormente disse da questão da volta do prazer como meta da psicoterapia, e alguém poderia indagar se nesse contexto pragmático da dureza da verdade é possível obtê-lo. A psicanálise inicialmente acreditava que a liberação de determinadas barreiras morais poderia trazer de volta a gratificação sexual perdida. Essa afirmação é totalmente inverídica no atual contexto sociológico, pois o célebre psicólogo ROLLO MAY, foi autor de uma pesquisa nos anos 60, onde o resultado foi o de que jovens na faixa dos 20 aos 30 anos preferiam o consumo de drogas ao ato sexual em si. Concluímos com esse restrito exemplo que o aparato humano infelizmente já não é há muito tempo à fonte máxima de prazer em nossos dias, mas, tão somente a necessidade de fuga de uma realidade adversa ou o desejo de poder pessoal e econômico.

Assim sendo, não serão determinadas verdades expostas numa discussão terapêutica a fonte de determinados males, mas, sobretudo o dilema máximo do paciente e terapeuta acerca de como lidar com a impotência pessoal e social.

Acrescento ainda a necessidade de se trabalhar com a contrariedade, conflito e crítica. É notório que se alguém soubesse lidar com esta última, jamais teria necessidade de se submeter à psicoterapia, pois em várias ocasiões já soube através de pessoas bem intencionadas ou não, daquilo que lhe falta ou o colocaria em outra posição. O respeito máximo por uma pessoa no ambiente terapêutico não é o reforço do ego, mas a lealdade de acompanhar a pessoa até o final do planejamento que se estabeleceu no princípio da terapia. Em suma, a função básica de todo esse processo é restabelecer o prazer perdido, sendo que o ponto central da ética é sempre impedir formas de satisfações destrutivas ou nocivas ao bem estar do paciente. Talvez boa parte desse prazer se encontre na independência do sujeito, pois nada é mais corrosivo a autoestima da pessoa do que a dependência, que inclusive gera a imitação de comportamentos neuróticos dos pais ou do ambiente circundante do paciente; reproduzindo vivências inacabadas de desespero e sofrimento.

A relação terapeuta-paciente, tão enfatizada em todas as correntes psicológicas, é fundamental para se esmiuçar o estilo de vida e a conduta da pessoa. O que o paciente deposita no terapeuta, assim como as reações deste último, dão um direcionamento sobre a autoestima do paciente, e como o mesmo é visto no ambiente social em que convive. Esse retorno da imagem pessoal do paciente é fundamental para uma avaliação de personalidade e o estabelecimento de novas metas de vida.

A função máxima da psicoterapia é a junção de energias para se alterar algo que uma só pessoa até o presente momento não conseguiu levar a cabo. Como disse anteriormente, é a tentativa de restabelecer a primazia do elemento humano, recuperando a serenidade, tranqüilidade e paz interior, artigos dos mais raros em nossos tempos.


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